análises de artigos científicos, por thadeu.

como a ciência chega até você?

artigo analisado

Howell e Brossard (2021), “(Mis)informed about what? What it means to be a science-literate citizen in a digital world”, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences. Acessar o artigo.

contexto

A maior parte das pessoas não entra em contato com a ciência lendo artigos científicos. Antes de chegar ao público, uma informação pode passar por assessorias de imprensa, jornalistas, buscadores, redes sociais, criadores de conteúdo e algoritmos de recomendação. Depois disso, ainda é interpretada a partir das crenças, emoções e experiências de quem a recebe.

Por isso, conhecer alguns conceitos científicos não é necessariamente suficiente para avaliar uma informação. É preciso compreender como o conhecimento foi produzido, como ele circulou e como nós mesmos participamos da interpretação.

o que o estudo investigou

Este não é um estudo experimental, com participantes, intervenção ou coleta de dados. Trata-se de um artigo conceitual que reúne pesquisas de diferentes áreas para discutir três perguntas: o que significa ser alfabetizado cientificamente no mundo atual, como essa alfabetização poderia ser desenvolvida e quais resultados podemos esperar dela.

As autoras propõem três dimensões complementares:

principais resultados

Como o artigo é conceitual, seus “resultados” correspondem principalmente ao modelo proposto pelas autoras. A ideia central é que a alfabetização científica precisa acompanhar todo o percurso da informação: sua produção pela comunidade científica, sua transformação pelos meios de comunicação e sua interpretação pelo público.

Isso inclui entender que o conhecimento científico costuma ser construído de forma gradual, que um único estudo raramente encerra uma questão e que incerteza não significa ausência completa de conhecimento. Também envolve reconhecer o papel da revisão por pares, das retratações e da reprodução dos resultados.

No ambiente digital, é necessário observar quem produziu determinada mensagem, quais interesses podem estar envolvidos, o que foi destacado ou omitido e se o título representa adequadamente o conteúdo. Também importa saber localizar a fonte original e buscar informações adicionais que ofereçam contexto.

Entretanto, encontrar uma fonte confiável ainda não garante uma interpretação adequada. Podemos avaliar com menos rigor uma informação que confirma aquilo em que já acreditamos e ser excessivamente críticos diante de uma conclusão que contraria nossas opiniões. As autoras argumentam, portanto, que parte da alfabetização científica consiste em direcionar o pensamento crítico também para os nossos próprios julgamentos.

O artigo ainda destaca que essas habilidades não estão distribuídas igualmente. Diferenças de acesso, escolaridade, renda e familiaridade com tecnologias influenciam quais informações as pessoas encontram e o que conseguem fazer com elas. Por isso, a alfabetização científica não deve ser tratada apenas como uma responsabilidade individual: meios de comunicação, escolas, instituições científicas e comunidades também participam desse processo.

o que os resultados permitem concluir

O artigo sugere que ser alfabetizado cientificamente não significa memorizar fatos nem aceitar automaticamente qualquer afirmação apresentada em nome da ciência.

Significa compreender como uma evidência foi produzida, acompanhar as transformações sofridas por ela até chegar ao público e reconhecer os próprios filtros usados para interpretá-la. Essa combinação pode ajudar a avaliar melhor o que um estudo realmente mostrou, por que recomendações científicas mudam e quais perguntas a ciência consegue ou não responder.

Também não devemos esperar que uma população mais alfabetizada cientificamente concorde sobre tudo. Questões como vacinação, mudanças climáticas ou inteligência artificial envolvem evidências, mas também escolhas éticas, políticas e sociais. A ciência pode informar essas decisões, mas não determina sozinha quais valores uma sociedade deve priorizar.

limitações e o que não podemos concluir

O modelo apresentado é uma proposta teórica. O artigo não testa se pessoas treinadas nas três dimensões se tornam efetivamente menos vulneráveis à desinformação, nem compara diferentes formas de desenvolver essas habilidades.

Também não se trata de uma revisão sistemática, com critérios explícitos para localizar e selecionar toda a literatura disponível. Além disso, boa parte da discussão está situada no contexto social e educacional dos Estados Unidos, o que exige cuidado ao transferir suas propostas diretamente para outros países.

Portanto, não podemos concluir que esse modelo já seja uma solução comprovada contra a desinformação. Também não significa que conhecimento científico seja dispensável ou que todas as interpretações tenham o mesmo valor. As próprias autoras alertam que estimular apenas a desconfiança pode produzir relativismo: a sensação de que nenhuma fonte merece crédito e de que não é possível conhecer coisa alguma com segurança.

aplicação no cotidiano

Diante de uma informação científica, o modelo do artigo pode ser transformado em três perguntas simples:

  1. Como esse conhecimento foi produzido? É um estudo isolado ou faz parte de um conjunto maior de evidências? O método permite chegar à conclusão apresentada?

  2. Como essa informação chegou até mim? Estou diante do artigo original, de uma notícia, de um vídeo ou apenas de um título? O que pode ter sido simplificado ou retirado do contexto?

  3. Como estou interpretando isso? Estou aplicando o mesmo rigor que aplicaria se a conclusão fosse contrária às minhas crenças? Alguma reação emocional está tornando a informação mais convincente?

Não é necessário dominar individualmente todas as áreas da ciência. O objetivo é saber formular perguntas melhores, localizar fontes mais adequadas e reconhecer quando precisamos recorrer ao conhecimento de outras pessoas.

referência completa

HOWELL, Emily L.; BROSSARD, Dominique. (Mis)informed about what? What it means to be a science-literate citizen in a digital world. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 118, n. 15, e1912436117, 2021. DOI: 10.1073/pnas.1912436117.

Esta análise foi desenvolvida com auxílio de inteligência artificial. O texto final foi revisado e editado por mim.